Dante Alighieri, a Divina Commedia e suas influências na arte ocidental

Dante Alighieri (1265-1321) nasceu em Florença, Itália, no seio de uma família da pequena nobreza florentina. Nessa época, os jovens ditos de boa família, recebiam uma educação erudita importante, com evidência no estudo do latim, considerada a língua reservada à elite.

Dante mudará esse conceito, escrevendo uma das primeiras obras em italiano (chamada de ‘ lingua volgare’, a língua vulgar) e sendo assim um dos fundadores da língua italiana.

Nesse tempo, a Itália era divida em pequenos principados ou cidades republicanas quase independentes. Nesse contexto, dois centros de poder opostos disputavam o controle e influência nos pequenos Estados dispersados pela Itália. Um deles era o papa, que possuía um grande território próximo à Roma. O outro, o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, visto como sucessor dos imperadores romanos, possuía um poder de comando sobre pequenos Estados, localizados principalmente na Alemanha e no norte da Itália.

Essas lutas se traduziam no interior das cidades italianas por dois grupos distintos, aqueles que eram a favor do papa, chamados ‘Guelfi’ e os ‘Ghibellini’, favoráveis ao imperador. Dante foi banido de sua cidade natal por causa de sua participação política favorável aos ‘Guelfi bianchi’. Nesse contexto de exílio ele escreve a Divina Commedia, incialmente chamada somente Commedia. O adjetivo ‘divina’ apareceu pela primeira vez sob a pena de Boccaccio e o título completo Divina Commedia na edição de 1555.

Sua obra é composta em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Na história, contada em verso, Dante, em sonho, visita esses três lugares, conhecendo os personagens que habitam cada um deles. A obra pode também ser uma importante fonte histórica, pois vários personagens citados realmente existiram. Além de personagens históricos, outros, do imaginário antigo e bíblico também aparecem. No Inferno e também no Purgatório, Dante é guiado pelo poeta romano Virgílio. No Paraíso é guiado pela sua doce Beatrice Portinari, jovem pela qual fora apaixonado e morrera precocemente.

Desde sua primeira edição, no século XIV, a Divina Commedia tem suscitado o mais vivo interersse da parte dos artistas, que encontram inspiração principalmente no sofrimento dos seres agonizantes do Inferno e do Purgatório.

O próprio autor é frequentemente representado, principalmente nos chamados ‘Ciclos de homens ilustres’. Esse tipo de pintura era muito frequente na Renascença. Na maior parte do tempo aparece em salas utilizadas por governantes, príncipes ou magistrados republicanos, dependendo do contexto. Esses retratos deveriam mostrar homens ilustres e virtuosos, exemplos a serem seguidos pelos governantes. O retrato de Dante em alguns desses ciclos, nos mostra sua importância e de sua obra. Um exemplo interessante onde o escritor aparece é no ciclo de homens e mulheres illustres, realizado por Andrea del Castagno na Villa Carducci, em Florença.

Seu amigo Giotto também o representa entre outros retratos de homens da época, na Cappella del Bargello, em Florença.

Já no século XIV, diversas edições da Divina Commedia aparecem com ilustrações de artistas da época. Na Renascença, o artista mais famoso a ilustrar a obra dantesca é Botticelli, famoso por suas pinturas o Nascimento de Vênus e a Primavera, ambos conservados na Galleria degli Uffizi, em Florença.

O texto também inspirou vários artistas do século XVIII. O francês Gustave Doré e o inglês William Blake estão entre os ilustradores mais importantes da Divina Commedia neste século.

Eugène Delacroix, fundador do romantismo francês, pinta em 1822 Dante e Virgílio nos Infernos. Esta obra, também chamada La Barque de Dante, é hoje conservada no Musée du Louvre, em Paris. Na mesma sala, a poucos metros da pintura de Delacroix, uma outra obra inspirada de Dante chama a atenção dos visitantes. Se trata de As sombras de Francesca da Rimini e Paolo Malatesta aparecem à Dante e à Virgílio nos Infernos (1855), de Ary Scheffer.

  

Também dois importantes escultores franceses da época se inspiram da Divina Commedia. Jean-Baptiste Carpeaux cria o grupo escultório Ugolino, entre 1857 e 1861, traduzindo em imagem uma das histórias mais marcantes apresentadas no texto. Ugolino teria sido um personagem real, um tirano que foi aprisionado com seus filhos e sobrinhos, todos condenados a morrer de fome. O desespero e a maldade do personagem, que claramente é descrito na parte da obra dedicada ao Inferno, o fazem saciar sua fome com a única carne disponível próxima a ele, a de sua própria prole. Carpeaux consegue traduzir no rosto do tirano, em sua escultura, o desespero quase selvagem pelo qual este é dominado. Esta obra é apresentada no primeiro andar do Musée d’Orsay, em Paris.

O célebre Auguste Rodin decide representar vários personagens dantescos em uma mesma obra: As portas do Inferno (1880-1890). Se trata de duas portas em bronze, de onde saem, de uma massa indefinida, diversos personagens. Entre eles, também encontramos Ugolino e sua prole, os amantes Francesca da Rimini e Paolo Malatesta, entre outros. A mais conhecida das obras de Rodin, O pensador (1903), deriva desta mesma escultura. Uma figura do pensador, em miniatura, é visível na parte superior de As portas do Inferno, meditando sobre a complexidade da existência humana. O pensador, também é chamado O poeta, pois representa Dante Alighieri.

Tanto As portas do Inferno, quanto O pensador, podem ser vistos por aqueles que visitam o Musée Rodin, em Paris.

A Divina Commedia, sempre será fonte de inspiração aos artistas e de reflexão aos leitores, graças ao seu caráter intemporal. Os sofrimentos e paixões dos personagens descritos, mesmo no século XXI, são de chocante atualidade. O leitor sempre poderá se identificar ao trajeto de Dante, através do Inferno, Purgatório e Paraíso, que representa, simbolicamente, a interminável jornada da alma humana, em busca de aperfeiçoamento e elevação.

Bibliografia:

Dorothy HUGHES, “Trecento Illustrators of the Divina Commedia” in Annual Reports of the Dante Society, No. 77 (1959), p. 1-40.

Dante ALIGHIERI, Italo BORZI (intro), Divina Commedia, Roma, Newton, 2011. (Reedição).

*Este artigo foi publicado originalmente na minha coluna mensal no Jornal Residenz, na edição de fevereiro de 2012. Para ver o artigo original, visite o site do Jornal Residenz -> www.jornalresidenz.com.br

**Este texto é de minha autoria, portanto, se for usar alguma informação, por favor cite. Obrigada!

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